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Horticultura sem solo
Designa-se por cultura sem solo, qualquer
sistema de produção em que as plantas não estão ancoradas no solo. No âmbito
desta disciplina, adoptaremos a seguinte classificação para as “Culturas sem
Solo” (quadro 1) e utilizaremos o termo hidroponia em sentido lato, como
sinónimo de cultura sem solo. Na realidade, o termo hidroponia deriva do
grego e significa trabalho ou cultura (ponos) na água (hydros), pelo que, em
rigor etimológico, este nome deveria ser utilizado para designar apenas a
“cultura em água”. No entanto, a tecnologia e a condução das culturas é
semelhante nos diferentes sistemas de cultura sem solo, pelo que muitas
vezes se englobam na designação genérica de hidroponia (sentido lato).
Quadro
1.
Classificação dos sistemas de cultura sem solo (hidroponia sentido lato).
1.1.
Lã de rocha
1.2.
Perlite
1.3.
Outros
2.
Cultura em água (Hidroponia em sentido
restrito)
2.1.
NFT (Nutrient Film Technique)
2.2.
Cultura em tanque
2.3.
Outros
É conveniente, desde já, classificar os
sistemas de cultura sem solo em 2 tipos:
1. Sistemas
abertos. São aqueles em que a solução drenada é perdida. Representam cerca
de 90% dos sistemas de cultura sem solo a nível mundial. Possuem a vantagem
de facilitar o controlo da nutrição e diminuir os riscos sanitários, mas
aumenta o consumo de água e contribui para a poluição dos solos e águas. Uma
forma de minimizar os inconvenientes dos sistemas abertos é utilizar uma
sistema aberto com recolha da solução. Nesta solução de compromisso, o
sistema de cultura sem solo é aberto, mas a solução é recolhida e utilizada
para fertilizar outras culturas, como um pomar, por exemplo.
2. Sistemas
fechados. São aqueles em que a solução drenada é recuperada e re-utilizada
no próprio sistema de cultura. Permite economia de água e de adubos e
minimiza a poluição causada pela solução nutritiva. Os sistemas de cultura
em água exigem sistemas fechados.
Principais razões para a adopção de sistemas
de cultura sem solo
Com a
intensificação dos sistemas culturais em estufa, surgem normalmente 2 tipos
de factores limitantes a nível do solo: salinidade e doenças causadas por
fungos do solo. A cultura sem solo permite ultrapassar estas limitações.
Além disso, uma vez que a nutrição da planta pode ser controlada e os
factores edáficos deixam de ser limitantes, as produtividades obtidas nestes
sistemas pode ser superior, especialmente sob condições de clima controlado.
Podemos resumir as vantagens e inconvenientes da cultura sem solo, em
comparação com sistemas de cultura no solo de acordo com o quadro 2.
Quadro
2.
Vantagens e inconvenientes da cultura sem solo
Substratos e suportes de cultura
O solo desempenha 4 funções fundamentais na
produção vegetal:
 |
Ancoragem das plantas |
 |
Fornecimento de água |
 |
Fornecimento de nutrientes |
 |
Fornecimento de oxigénio às raízes |
Nos sistemas de cultura sem solo o
fornecimento de água e de nutrientes é assegurado pela solução nutritiva. O
arejamento tem de ser assegurado, de diferentes formas, dependendo do
sistema utilizado. A função de suporte ou ancoragem tem de ser assegurada
por substratos ou por outros suportes de cultura e, se necessário, por
tutores.
Entre os substratos mais utilizados
actualmente em sistemas de cultura sem solo contam-se os seguintes:
 |
Materiais inertes
 |
Lã de rocha |
 |
Perlite |
 |
Areia |
 |
Outros (e.g. argila expandida) |
|
 |
Materiais orgânicos
 |
Turfa |
 |
Fibra de coco |
 |
Outros sub-produtos agrícolas ou
florestais, como serrim e bagaço de uva compostado |
|
Em sistemas de
hidroponia propriamente dita, como o NFT, o suporte das plantas é assegurado
por meios mecânicos, através do prendimento de plantas baixas (e.g. alface)
e da tutoragem de plantas altas (e.g. tomate, pepino).
Quadro 3.
Resultados da
análise química da água em 2 regiões.
|
|
Vairão |
Patacão |
|
|
6,6 |
7,6 |
|
HCO3-
(ppm) |
9 |
404 |
|
CEe (dS/m) |
0,26 |
0,87 |
|
Ca2+
(ppm) |
15 |
97 |
|
Mg2+
(ppm) |
10 |
32 |
O teor em bicarbonatos determina o poder
tampão da água. O ião bicarbonato é o ião predominante no equilíbrio do CO2
a pH entre 4,0 e 8,3.
HCO3- +
H+ <->
H2O
+ CO2
Pretende-se que a solução nutritiva possua algum poder tampão, mas não um
teor em bicarbonatos excessivo que dificulte a acidificação da solução.
A solução
nutritiva
Nos sistemas de cultura sem solo a solução
nutritiva deve aportar todos os nutrientes necessários às plantas. Existem
publicadas diversas receitas para a composição de soluções nutritivas.
Algumas, como a solução de Hoagland, derivam dos trabalhos de fisiologia
vegetal e podem ser consideradas de uso geral, ou pontos de partida para a
optimização da solução nutritiva para determinada cultura.
Para as principais culturas hortícolas existe
experimentação de diversas regiões do mundo que conduziu à optimização da
composição de soluções nutritivas. Nos casos mais complexos, a composição da
solução nutritiva varia de acordo com o estado de desenvolvimento da
cultura.
No anexo 1 apresentam-se algumas receitas de
soluções nutritivas.
Equipamento básico
O equipamento básico para uma instalação de
cultura sem solo consiste em:
 |
2 tanques para solução nutritiva
concentrada |
 |
1 tanque para ácido ou base para regular o
pH |
 |
Injectores |
 |
Sensor de condutividade eléctrica e sensor
de pH |
 |
Controlador |
Regras gerais para misturar fertilizantes
 |
Usar fertilizantes solúveis de qualidade. |
 |
O cálcio (nitrato de cálcio) e o fósforo
(fosfato de potássio) ou enxofre (sulfato de magnésio) não se misturam no
mesmo tanque. |
 |
Dissolver os fertilizantes individualmente
em água morna antes de adicionar aos tanques. |
 |
Encher o tanque de água antes de adicionar
os fertilizantes, para evitar precipitação. Agitar sempre. |
 |
Usar luvas e máscara sobre boca e nariz. |
 |
Quando se usam injectores (50-200 vezes
concentração) é necessário utilizar 2-3 tanques. Se a solução tiver a
concentração final ou uma concentração até 15 vezes superior à
concentração final, um tanque para a mistura dos nutrientes é suficiente. |
Quadro 4. Adudos que se colocam em cada um
dos taques
|
Tanque A |
Tanque B |
Tanque C |
|
Nitrato de cálcio
Nitrato de potássio (1/2)
Nitrato de amónio
Ácido nítrico
Quelato de ferro |
Nitrato de potássio (1/2)
Sulfato de potássio
Sulfato de magnésio
Fosfato monopotássio
Ácido fosfórico
Bicarbonato de potássio*
Restantes micronutrientes |
Ácido (fosfórico, nítrico) ou
base (bicarbonato de potássio, hidróxido de potássio)
|
Condução das culturas em sistemas de cultura
sem solo
A condução de
culturas sem solo difere da condução das culturas no solo. Em geral, a
condução das culturas é baseada na regulação da condutividade eléctrica da
solução nutritiva.
A produção dos transplantes faz-se geralmente
por sementeira em cubos de lã de rocha. Após a transplantação deve-se colocar o gotejador
no cubo durante 4-5 dias; depois afasta-se o gotejador do pé da planta.
Logo após a transplantação é necessário regar
com frequência; quando as raízes penetrarem os blocos pode-se reduzir a rega
para 8-10 vezes por dia.
Cada período de rega deve durar o suficiente
para originar 15-30% de drenagem. Em climas mediterrânico e sob condições de
elevada evapotranspiração pode ser necessário drenar até 50% da solução
nutritiva.
É necessário monitorizar o pH e CE do
substrato com regularidade e procurar manter o pH a 5,8-6,4 e a CE a 2,2-3,5
dS/m.
A variação da condutividade eléctrica provoca
alterações no comportamento das plantas e o produtor deve tirar partido
desses efeitos.
Baixa condutividade:
 |
Favorece absorção de nutrientes |
 |
Favorece crescimento vegetativo |
 |
Durante a instalação e crescimento inicial |
Elevada condutividade
 |
Favorece produção de frutos |
 |
Usar em tempo encoberto e no Inverno |
 |
Aumentar durante a produção de frutos |
Registos diários
A cultura sem solo é uma tecnologia de
produção tecnicamente evoluída. Uma boa condução das culturas deve ser
baseada em registos regulares de diversos parâmetros. Os seguintes
parâmetros devem ser registados diariamente:
 |
Regas
 |
Duração (minutos por rega) |
 |
Frequência (regas por dia) |
|
 |
Solução recolhida nos gotejadores
 |
Volume (litros) |
 |
pH |
 |
Condutividade |
|
 |
Solução drenada
 |
Volume (litros) |
 |
pH |
 |
Condutividade |
|
 |
Calcular % de drenagem |
 |
Dados climáticos |

ANEXO 1-Soluções nutritivas de uso geral para
hidroponia
Solução de Hoagland
|
|
Solução 1 |
Solução 2 |
|
Stock |
Final |
Stock |
Final |
|
g/L |
mL/L |
g/L |
mL/L |
|
Ca(NO3)2.4H2O |
236.2 |
5 |
236.2 |
4 |
|
KNO3 |
101.1 |
5 |
101.1 |
6 |
|
KH2PO4 |
136.1 |
1 |
115.0 |
1 |
|
MgSO4.7H2O |
246.5 |
2 |
246.5 |
2 |
|
Micronutrientes |
|
1 |
|
1 |
Solução de micronutrientes Hoagland
|
Sais |
Stock (g/L) |
|
H3BO3 |
2.86 |
|
MnCl2.4H2O |
1.81 |
|
ZnSO4.7H2O |
0.22 |
|
CuSO4.5H2O |
0.08 |
|
H2MoO4.H2O |
0.02 |
|
Quelato de Ferro |
1
g/L Fe |
Solução de Johnson (concentração final)
|
|
|
|
Nutrientes |
ppm |
|
Ca(NO3)2.4H2O |
457.7 |
|
N |
105 |
|
KNO3 |
251.3 |
|
P |
33 |
|
KH2PO4 |
142.9 |
|
K |
138 |
|
MgSO4.7H2O |
251.3 |
|
Ca |
85 |
|
FeDTPA |
23.8 |
|
Mg |
25 |
|
H3BO3 |
1.3 |
|
S |
33 |
|
MnSO4 |
0.794 |
|
Fe |
2.3 |
|
ZnSO4.7H2O |
0.106 |
|
B |
0.23 |
|
CuSO4.5H2O |
0.026 |
|
Mn |
0.26 |
|
H2MoO4.H2O |
0.013 |
|
Zn |
0.024 |
|
|
|
|
Cu |
|
|
|
|
|
Mo |
0.007 |
Solução de Jensen (concentração final)
|
Sais |
g/1000 L |
|
|
|
|
Ca(NO3)2.4H2O |
500 |
|
N |
106 |
|
KNO3 |
203.7 |
|
P |
62 |
|
KH2PO4 |
272.5 |
|
K |
156 |
|
MgSO4.7H2O |
494.7 |
|
Ca |
93 |
|
FeDTPA |
25.4 |
|
Mg |
48 |
|
H3BO3 |
2.646 |
|
S |
64 |
|
MnCl2.4H2O |
2.381 |
|
Fe |
3.8 |
|
ZnSO4.7H2O |
0.397 |
|
B |
0.46 |
|
CuCl2.2H2O |
0.132 |
|
Mn |
0.81 |
|
H2MoO4.H2O |
0.053 |
|
Zn |
0.09 |
|
|
|
|
Cu |
0.05 |
|
|
|
|
Mo |
0.03 |
Solução nutritiva para o tomate (Hochmuth,
1990)
|
Nutrientes |
Até 1º cacho |
1-2 |
2-3 |
3-5 |
Após 5º cacho |
|
(ppm) |
|
N |
70 |
80 |
100 |
120 |
150 |
|
P |
50 |
50 |
50 |
50 |
50 |
|
K |
120 |
120 |
150 |
150 |
200 |
|
Ca |
150 |
150 |
150 |
150 |
150 |
|
Mg |
40 |
40 |
40 |
50 |
50 |
|
S |
50 |
50 |
50 |
60 |
60 |
|
Fe |
2,8 |
2,8 |
2,8 |
2,8 |
2,8 |
|
Cu |
0,2 |
0,2 |
0,2 |
0,2 |
0,2 |
|
Mn |
0,8 |
0,8 |
0,8 |
0,8 |
0,8 |
|
Zn |
0,3 |
0,3 |
0,3 |
0,3 |
0,3 |
|
B |
0,7 |
0,7 |
0,7 |
0,7 |
0,7 |
|
Mo |
0,05 |
0,05 |
0,05 |
0,05 |
0,05 |
Solução para pepino (Hochmuth, 1991)
|
Sais |
Até 1º fruto |
Após 1º fruto |
|
g/100 L |
g/100 L |
|
Ca(NO3)2.4H2O |
68 |
136 |
|
KNO3 |
20 |
20 |
|
KH2PO4 |
27 |
27 |
|
MgSO4.7H2O |
50 |
50 |
|
FeEDTA |
2.5 |
2.5 |
|
Stock de micronutrientes |
15
mL |
15
mL |
Stock de micronutrientes para pepino
|
|
g/500 mL |
|
H3BO3 |
8.33 |
|
MnCl2.4H2O |
7.50 |
|
ZnSO4.7H2O |
1.31 |
|
CuCl2.2H2O |
0.41 |
|
MoO3 |
0.17 |
Concentração final de nutrientes para pepino
|
Nutrintes |
Até 1º fruto |
Após 1º fruto |
|
N |
133 |
240 |
|
P |
62 |
62 |
|
K |
150 |
150 |
|
Ca |
130 |
260 |
|
Mg |
50 |
50 |
|
S |
70 |
70 |
|
Fe |
2.5 |
2.5 |
|
B |
0.44 |
0.44 |
|
Mn |
0.62 |
0.62 |
|
Zn |
0.09 |
0.09 |
|
Cu |
0.05 |
0.05 |
|
Mo |
0.03 |
0.03 |

|